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14 de Dezembro de 2017

Sobre o acesso à Educação

Juracy Cruz Jr, Advogado
Publicado por Juracy Cruz Jr
há 10 meses

Postei no Facebook matéria da Folha de São Paulo sobre a menina Bruna, negra, pobre e da rede pública que passou em 1º lugar na medicina Fuvest e fiquei intrigado com os pitacos que fizeram, como “feliz por existir exemplos práticos que comprovam que as cotas são prejudiciais ao sistema” e “quando a pessoa quer e se empenha por um futuro melhor, a condição financeira, posição social ou cor da pele não importa, ela consegue”.

Na melhor das hipóteses, leram apenas a chamada e comentaram sem se dar o trabalho de sequer passar os olhos na matéria, satisfazendo assim o orgulho próprio, preferindo manter o status de um pensamento tacanha e dogmático, de que o “resto” não faz melhor porque não quer, porque é fraco.

Ora, a feliz e recém universitária, beneficiada com as cotas, declara que “os programas de cota são paliativos, mas precisam existir. Não há como concorrer de igual para igual quando não se tem oportunidade de vida iguais”. Ou seja, a moça rebateu os dois argumentos em uma única frase. Ela que, para conseguir seu feito, além de seu empenho e dedicação, teve o determinante apoio de parentes e amigos da família, ajudando a minimizar uma série de outras necessidades que passou.

Inimaginável tirar da Bruna o mérito pelo sucesso alcançado. Aliás, seu mérito é maior do que todos os demais que passaram no vestibular, não pelo sua colocação, mas pelo que ela teve que enfrentar. Enfrentou o Estado, que não oferece condição básica para que qualquer cidadão possa escolher ser universitário. Enfrentou uma sociedade que, lamentável e provavelmente, em algum momento deve ter tentado fazê-la desistir de seu ideal pois “isso não é para pessoas ‘como ela’".

Diferente do raciocínio acima citado de meus interlocutores, um dos fatos que permeiam a matéria é que as cotas foram importantes para a Bruna, tanto quanto para um sem número de jovens que, como ela, tem um pensar destemido e desafia essa lógica social desconstrutiva e perversa que permeia a vida de um sem número de pobres e dependentes da rede pública de ensino, sejam eles negros ou de qualquer raça ou etnia.

Outro fato é que, por mais que seja valoroso o esforço da Bruna (para mim sobre-humano, dado as suas condições de vida, conforme descrito na matéria), a grande maioria nossos concidadãos, mesmo se empenhando, não têm acesso a uma boa condição sócio-educacional para atingir tais objetivos. Para conseguir seu feito, a Bruna precisou de bolsa de estudos em cursinho que já era popular, pois conforme declarou “Minha escola era boa, mas, infelizmente, tinha todas as dificuldades da educação pública, que não prepara o aluno para o vestibular. Falta conteúdo, preparo de alguns professores. Sem o cursinho, não iria conseguir”. Ainda segundo ela, vários de seus colegas de escola sequer sabem que a USP é pública e que existe vestibular para passar.

O fato isolado, a meu ver, leva à conclusão de que nossa sociedade está perdendo o talento de outras brunas, marias, josés, antonios, com o mesmo potencial e vontade, que poderiam chegar lá apenas pela escolha e, porém lhes faltam, de seu meio, os afetos e, da sociedade, o cumprimento do dever de dar condições básicas de saúde, proteção e Educação de qualidade para tanto.

Parabéns Bruna, verdadeiro oásis nesse deserto qual nos impõe a nossa sociedade!


Fonte: Folha

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